House Barbaard Vietnã, um mistério de barbudo para barbudo
De todos os países que conheci no sudeste asiático, o Vietnã foi o que mais me surpreendeu. O país, marcado pela guerra (que lá se chama Guerra Americana e não do Vietnã) é completamente diferente do que se vê nos filmes.
Minha primeira parada foi na Cidade de Ho Chi Minh, antiga Saigon, que mudou de nome em 1975, com a vitória do Vietnã sobre os EUA, em homenagem ao líder revolucionário que lutou até a morte pela independência do seu país.
Mas minha experiência em barbearia acabou rolando em Hanói, capital do país.

Hanói é uma cidade de uma poesia romântica, que vive na contradição entre a tradição e as pressões por mudanças do mundo moderno.
É um lugar em que você pode encontrar grupos de adolescentes praticando artes marciais nas praças de domingo e uma horda de motos selvagens e barulhentas dominando as ruas e calçadas no mesmo dia pela noite.

Acima de tudo, Hanói é uma cidade cheia de mistérios.
De cafés e restaurantes com fachada simples, mas que ao passar por uma portinha, você entra em ambientes completamente diferentes do que imaginou: grandes salões, perdidos no tempo, elegantes e surreais.
Foi assim minha experiência na House of Barbaard.
Encontrei a House of Barbaard numa busca do Google.
Li que a barbearia foi fundada por uma dupla de holandeses, inspirada em um sofisticado e retrô clube para cavalheiros. Chegando na região, quase me perdi.
A barbearia ficava numa rua bem movimentada, um tanto caótica, com lojas de todos os tipos, entulhadas de produtos, que vendiam de brinquedos a óleo para motos.

Toquei a campainha e fui recebido por um rapaz vestido de roupa social, com suspensórios e gel no cabelo.
Ele confirmou minha reserva, ofereceu café, água e cerveja e me pediu para esperar pelo meu barbeiro.
A sala de estar da casa já era espetáculo à parte.
Totalmente diferente da rua ao lado de fora, iluminada à meia luz, simulando um ambiente do início do século XX, com móveis de madeira antigo, abajures espalhados e alguns pôsteres com fotos de barbudos emoldurados como quadros pendurados na parede.

Meu barbeiro chegou e me convidou a segui-lo. Foram uns quatro lances de escada. Em cada andar, havia cômodos secretos e pouco iluminados.
Me senti como um personagem em um livro de mistérios.
No andar onde funcionava a barbearia, havia um bar antigo recheado de drinks. Um barman me entregou uma Heineken e uma bandeja de queijos holandeses.
Havia várias revistas e pôsteres antigos da revista Playboy, livros de design e de turismo.
Em um determinado momento, um dos sócios do Barbaard apareceu e me cumprimentou animado.
Me pediu desculpas, pois uma amiga dele estava na cidade e poderia aparecer a qualquer momento no salão. Entendi naquela hora que era um local apenas para homens.

Todos os barbeiros eram asiáticos. Ocidentais, apenas eu, o tal sócio e alguns clientes. Finalizada a Heineken (e os queijos), começou o serviço. Impecável e completo, foi quase uma sessão de spa.
Meu barbeiro manipulava a navalha e tesoura com tamanha destreza e delicadeza que acabei pedindo para ele cortar meu cabelo também.
Além do corte, ainda fazia parte do serviço uma massagem nos olhos, testa e cabeça.
Fiquei ainda um tempinho por lá, visitando alguns cômodos e tomando um café na saída. O House of Barbaard foi provavelmente a experiência mais sofisticada que tive em uma barbearia.
É aquele mistério bom de descobrir. De barbudo para barbudo. Até a próxima.